Mk.Oliver

22/12/2019

Faltavam poucos dias para o Natal. O ano, não me lembro ao certo. A chuva era torrencial e não tínhamos nem como sair

de casa. As ruas enlameadas e barrentas tornavam a aventura de colocar os pés para fora um desafio extremo.


O transporte coletivo não transitava e o único acesso ao bairro estava alagado: estávamos ilhados no longínquo bairro.

Não transitavam carros e os que se arriscavam, ficavam atolados. O comércio e tudo mais estava parado.


O que lembrava que estávamos perto do Natal era a bela árvore que minha mãe montara uma semana antes. Foi a

última coisa que fez antes de todo aquele aguaceiro cair. Chovia há quinze dias.


Apesar de sabermos que a chuva era uma benção para a vida, todo aquele dilúvio e o fato de estarmos incomunicáveis, através da única via de acesso, nos deixava angustiados.


Olhávamos para a simples decoração natalina e acreditávamos que o período de festas daquele ano estava condenado. Passaríamos sozinhos, sem os familiares e amigos e, o pior, não teríamos uma mesa farta ou novidades porque não dava como sair e comprar os itens que faltavam.


Contávamos as horas passando e, entre uma brincadeira ou outra com meu irmão, uma leitura ali outra acolá, uma

história ou outra de minha mãe, ficávamos esperançosos com qualquer melhora do tempo e a ameaça do sol aparecer e dispersar as nuvens. Porém, ao voltar a chover novamente, nos entreolhávamos e a melancolia enchia a pequena casa

que, aquela altura, já estava com cheiro de mofo e goteiras em diversos lugares. Nem a roupa, colocada no varal, secara.


Certa noite, minha mãe resolveu nos contar uma história que ela ouvia quando era criança. Dizia ela que, quando era pequena, minha avó sempre ensinava que, quando quiséssemos algo importante para nós, devíamos pedir com muita

fé a acreditar que aquilo se transformasse em realidade.


Assim o fiz. Antes de dormir, ajoelhei ao pé da cama e pedi para que a chuva parasse, somente para termos um final

de ano em família e para que todos ficassem felizes.


No dia seguinte, quando olhei pela janela, não acreditei que via a luz do sol iluminar o jardim e tudo mais. Ajoelhei, à

beira da cama, e agradeci por ter sido atendida.


Poucos dias depois, à véspera do Natal, meus pais conseguiram providenciar os itens necessários para termos uma agradável comemoração de Natal. O acesso ao bairro foi liberado, o transporte coletivo voltou a funcionar, o comércio

local foi reabastecido e conseguimos comprar tudo o que faltava para recebermos nossos parentes queridos e amigos da família.


Aquele foi um dos natais mais inesquecíveis de minha vida e, pela primeira vez, acreditei que Deus existe. Era um

milagre de Natal.

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